Leitura: para além do princípio do prazer

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Nunca fui muito receptivo à promessa marota (feita em geral às crianças) de que “a leitura é uma coisa prazerosa” – uma variante exemplar da sentença genérica: “Só se deve fazer aquilo que dá prazer”. Seguindo este mesmo critério “epicurista”, não demorei a descobrir (ainda na adolescência) que há coisas bem mais prazerosas e agradáveis do que a leitura (cada um faça aqui a própria lista). Nem só de prazer se vive, é claro – mas nem só por prazer se lê.

Desde esta constatação, afinal tão simples, continuei a ler – e, como era inevitável, fui me dedicando a leituras cada vez mais complexas e eventualmente árduas. Por decisão própria, por imposição profissional, etc. – enfim: continuei a ler pelos mais diversos motivos (e aqui também cada um há de ter sua lista particular de razões). Li muito, continuo lendo sempre (ora mais, ora menos), porque gosto, mas também porque sei que é importante e necessário. E cada vez mais agradeço por não ter sucumbido à armadilha infanto-juvenil de… “ler por prazer”.

Mas admito (sem necessariamente me orgulhar disso) que estou em minoria: para o senso comum, a leitura de mais uma entre várias formas de “lazer”, ou de “consumo de bens culturais”. Pelo menos é o que aponta a recente pesquisa “Perfil do Consumo de Cultura do Brasileiro”, promovida pela Fecomercio-RJ, onde o hábito de ler aparece listado junto com os de ir ao cinema, ao teatro, assistir a um espetáculo de dança ou comprar um CD ou DVD. O resultado: menos da metade (apenas 43 %) cultiva estes hábitos – um índice considerado baixo, para as atuais expectativas de “inclusão social”. Só que, desta cifra, 65 % preferem ler um livro – o que foi considerado um índice animador. Já a média de leitura foi “decepcionante”: 5,1 livros / ano.

Nada tenho a alegar contra estas pesquisas, em nome de um eventual purismo intelectual. Livros são produtos (como CDs, filmes e peças teatrais) e é justo que seu consumo seja mensurado. O problema não são as pesquisas sobre leitura – mas a leitura que se faz destas pesquisas. Além de uma concepção estreita sobre o ato de ler, pesquisas assim trazem embutidos todos os vícios da lógica das quantidades, vigente numa “democracia das estatísticas”, como a nossa… Na verdade, o que cabe perguntar é: quem são estas pessoas que leem? E quais são os livros?

O fato é que ler sempre foi e será muito mais do que apenas “ler”. Para o educador americano Mortimer J. Adler, por exemplo (autor de um verdeiro “tratado” sobre o assunto), a leitura é um vasto horizonte de descoberta e aprendizado, que não exclui a experiência do “deleite”. Em outras palavras: ler é um processo essencial para a formação do homem – e isso abrange mais do que sua dimensão intelectual. Para Adler, ler muito nunca foi sinônimo de ler bem.

A leitura (dizia Adler) é um processo de descoberta – e o mais importante é conferir a qualidade desse processo. Por isso, entre as formas de ler bem, ele destacava quatro modalidades, que variam conforme o tempo e a necessidade do leitor. A primeira  é a chamada leitura elementar, que consiste em compreender o enunciado de um texto – coisa que analfabetos funcionais sequer conseguem. O segundo tipo seria a leitura inspecional, ou folheio, ideal para quem dispõe de pouco tempo (mas no fundo um desafio para o leitor interessado em obter o máximo de proveito no menor prazo possível). Já a leitura analítica (que Adler chamava de “boa leitura”) é um verdadeiro “mergulho” no texto, em que o leitor empenhado se “apossa” do conteúdo e trabalha sobre ele até incorporá-lo a sua bagagem cultural. Finalmente, a leitura comparativa constitui o tipo mais complexo: o leitor lê vários textos e livros ao mesmo tempo, relacionando-os entre si e com o assunto de que eles tratam.

Com a inteligência e generosidade de grande educador, Mortimer J. Adler foi fiel (como poucos) ao sentido original do verbo ler – derivação do latim legère que significa “recolher, apanhar, enrolar, tirar, escolher, captar com os olhos”. E, antes que o acusassem de segregação ou elitismo, o próprio Adler lembrava que todo mundo faz um pouco disso, quando lê ou simplesmente folheia um livro: todos têm potencial para superar limitações, desde que invista no que poderíamos chamar de uma “educação pela pedra”– pontuada por perseverança e rigor.

Com sua combinação de mestre generoso e pedagogo exigente, Mortimer Adler fez mais pela Educação (e pela leitura) do que todos os atuais programas populistas de “inclusão social” Pena que a maioria mal se dê conta da riqueza e do potencial de seu legado – preocupada que está em seguir modismos, nutrir estatísticas ou manter-se “rigorosamente” dentro dos limites do princípio do prazer.