Em termos históricos, a linguagem oral antecedeu a escrita, que surgiu por volta de 5000 a.C., entre os povos da antiga região do Egito e da Mesopotâmia. Desde então, a linguagem humana tem sido ao mesmo tempo palavra oral e palavra “impressa”– ou seja, Verbo e Texto, Espírito e Letra –, com limites e potencialidades em cada uma dessas vertentes.
Muitos estudiosos concordam num ponto: a incorporação do registro escrito representou uma sofisticação intelectual e moral, sobretudo após a passagem da pictografia (egípcios) e da ideografia (chineses) para a escrita alfabética e fonética. Graças à escrita, as ciências e as artes tiveram grande desenvolvimento – o que leva muita gente a considerar, apressadamente, a história da escrita como a própria história do pensamento humano.
Nem todos, porém, viram neste “salto de qualidade” um fator efetivamente positivo. Já no Antigo Testamento, alguém lamenta que “a Letra mata”, enquanto só “o Espírito vivifica”. E em seu diálogo Fedro, dedicado não por acaso à justeza dos discursos, Platão põe na boca de Sócrates uma severa advertência quando às limitações que a palavra escrita impôs à exposição e divulgação da Verdade. Para Sócrates / Platão, a escrita é um discurso restrito, limitado, porque silencioso: necessitaria da ajuda do autor, sendo incapaz de se defender sozinho. “A escrita”, diz Sócrates, “é o mesmo que ler na areia e escrever no mar”[1].
Pelo menos na língua portuguesa praticada correntemente no Brasil, a relação oral x escrito parece se confundir com (e se sobrepor a) o par de opostos informal x formal. Diferenças geográficas à parte, tem-se por aqui o (mau) costume de atribuir uma informalidade obrigatória à fala, numa simplificação de usos que muitas vezes se aproxima do vulgar. Nesse sentido, é mais comum que se fale, por exemplo, “Me dá um dinheiro!”, enquanto se reserva a forma “Dê-me um dinheiro!” para o registro escrito da frase. Construções simplificadas e concordâncias extravagantes (de pessoa ou de número) costumam freqüentar sem susto e sem problemas nossa linguagem falada. O problema, no entanto, começa quando essas estruturas coloquiais passam a ser vistas como referências exemplares para a própria escrita.
Esta vem sendo a tendência atual não só de autores, com sua crescente vocação para a repetição naturalista da dicção oral dentro da escrita, mas infelizmente também de alguns estudiosos e professores que hoje parecem em guerra aberta com a gramática – ao ponto de acusarem a boa escrita de ser uma prática preconceituosa e excludente. Mas esse mal-entendido não deve nos impedir de constatar que o coloquialismo é um elemento circunstancial, em nada decorrente de alguma natureza intrínseca da linguagem. Basta, para isso, observar a ausência de tais excessos em outras línguas – mesmo outras de origem latina, como o francês e o espanhol.
Longe de constituir uma limitação ou obstáculo, o “silêncio indefeso” da palavra escrita soa-nos hoje, acima de tudo, como um desafio: somada à linearidade sucessiva do texto, a ausência do autor no ato da leitura só faz aumentar a responsabilidade moral de quem escreve, quando se propõe proclamar a verdade com o máximo de clareza e elegância. Questão, mais uma vez, de equilíbrio e adequação. Em suma: de sabedoria.
[1] Platão, “Fedro”, in Diálogos, Hemus Livraria Editora, São Paulo, 1981.