Para emergir do caos originário, numa época em que ação e pensamento não iam muito além da satisfação de suas necessidades mais imediatas, os homens foram aos poucos formalizando sua linguagem. A certa altura de sua trajetória, a simples comunicação já não lhes era suficiente: para se diferenciarem dos cachorros e abelhas, por exemplo, desenvolveram uma linguagem nominal, ou formal, capaz de nomear os objetos, as pessoas, os lugares e as situações – e, sobretudo, oferecendo-lhe recursos para formalizar o relacionamento entre os próprios homens, nos termos de um compromisso moral. Mais do que simples evolução, tratou-se de um verdadeiro salto civilizatório: o pensamento se tornou formal e explicitamente gramatical.
É uma pena que os estudiosos do assunto não ressaltem ou valorizem essa origem mais nobre da linguagem humana, preferindo a versão vulgar de que a palavra foi, a princípio, coloquial para só depois (e aos poucos) ir-se constituindo em forma convencional. Uma exceção especial nesse universo teórico bem pouco animador é justamente o filósofo alemão Eugen Rosenstock-Huessy, citado no início deste livro[1]. Para ele, o problema principal desses estudos reside na indistinção teórica entre a linguagem meramente informativa e fática (que é, de certa forma, comum a muitas outras espécies animais) e aquela que tem a força “das tragédias e dos grandes juramentos”. Observando as crianças para tentar explicar a origem da linguagem dos adultos, diz Huessy, eles parecem ignorar a verdade óbvia de que a criança não explica o homem – mas, pelo contrário, o adulto tem chances de explicar a criança.
Esse equívoco, ou ilusão, está na raiz da crença moderna de que, no campo da linguagem, o uso precede a norma, esta última sendo apenas uma cristalização (para alguns, uma “castração”) do potencial criativo e comunicativo da linguagem oral. Mas a linguagem humana (tal como este livro a entende e defende) é muito mais do que um meio de comunicação: constitui, desde a origem, uma ferramenta formal, que nada tem de “natural” ou “espontânea”. Nesse sentido, pode-se afirmar, sem exagero, que a escrita depende de normas, assim como a língua é constituída, no essencial, por sua norma culta. Por isso, a arte da boa escrita depende da aceitação (e do bom uso) dessa realidade: a de que a linguagem humana (articulada e formalizada numa gramática e amparada num conjunto de regras morais) é a coisa menos natural do mundo.
Certamente, do ponto de vista pragmático da arte da boa escrita, não existe pecado algum em combinar aspectos formais e informais da linguagem, tirando deles os efeitos mais criativos ou, pelo menos, mais adequados a cada situação. Mas nunca será demais repetir que acreditar e apostar numa origem mais nobre para a linguagem (do formal para o informal, e não ao contrário) pode fazer toda a diferença: significa, para a escrita, um investimento em conteúdos mais consistentes, em estruturas mais ricas e mais consolidadas, num fraseado mais bonito e sublime. Retornando a essas origens, a arte da boa escrita não regride: avança.
[1] Eugen Rosenstock-Huessy, A origem da linguagem, Editora Record, 2002.