Salto qualitativo
O poder estruturante que a Linguagem exerce sobre nossos pensamentos e idéias não pode ser vivenciado apenas na vida de leitor: é no exercício da Escrita que o experimentamos; ele e seus frutos.
Dentre todos os marcos em minha formação como indivíduo, o curso de Arte da Escrita do professor Antonio Fernando Borges foi um dos mais notáveis, preenchendo aquela ampla lacuna instalada desde os anos de graduação, que nos torna leitores atrofiados e escritores ainda piores. Ao longo do curso, pude desenvolver não somente a escrita mas também – e a reboque – a expressão verbal atrofiada pelas limitações do jargão técnico de minha ocupação de médico intensivista. Pontuo aqui este salto qualitativo (dado com o auxílio cuidadoso do caríssimo mestre) proporcionado por este aprendizado, que se torna hábito, que se torna segunda natureza e que se torna "necessidade" enfim.
A respeito do curso, tomo de empréstimo as palavras de um outro Borges, oeminente portenho: “não me parece haver imprecisão ou hipérbole ao qualificá-lo de perfeito”.
Haroldo Falcão Ramos da Cunha Médico Intensivista Rio de Janeiro, março de 2010
Um ato de civilização
Antonio Fernando Borges é um escritor primoroso. Porque vê na literatura não um mero exercício de vaidade, mas uma aventura do espírito alicerçada no culto da língua. Borges lapida o idioma e transcende o seu sentido utilitário. Porque a língua que serve à comunicação também serve, num aspecto mais amplo, à tradição cultural de um povo. Se esse povo fala mal e escreve mal, transmite um desvirtuoso legado.
Borges podia se contentar em ser um escritor – um autor com três obras admiráveis: Que fim levou Brodie?, Bras, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires. Mas um cultor da língua tem horizontes mais amplos: com base em sua experiência como professor de técnicas de escrita, produziu o utilíssimo Não perca a prosa. É um dos poucos livros sobre regras do idioma pátrio que não trata o leitor como um anafabeto funcional. Ou como um idiota. Ou como ambos.
O curso Em busca da Prosa Perdida, que evoca Marcel Proust, também invoca uma época, início do século XIX, em cujo bom uso da língua os professores militavam e os alunos aprendiam. Parece-me hoje que tais condutas são um tanto excêntricas e até mal vistas.
Borges escreve bem porque pensa bem. E soma tais qualidades à sua vocação para ensinar. Em busca da Prosa Perdida é mais do que um curso: é sua contribuição à civilização brasileira.
Bruno Garschagen Analista político e faz mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Formado em Direito e pós-graduado em Jornalismo Cultural, trabalhou como jornalista nas áreas de política, economia e literatura para a Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Valor Econômico, revistas Entrelivros e Primeira Leitura, sites Nomínimo e Americas Reporter. Também atuou como redator e tradutor (espanhol) da Enciclopédia Barsa e foi colunista da revista portuguesa Atlântico e do jornal português i. Tem publicado artigos de opinião em O Globo, mantém o blogue www.brunogarschagen.com e colabora com o blogue coletivo português O Insurgente (www.oinsurgente.org).
Uma oportunidade formidável
Lembro bem daquele janeiro de 2003, em que, com a vitória de Lula na eleição presidencial, alguma coisa parecia mudar no país. A sensação que eu tinha acabou sendo perfeitamente expressa por um livro que eu tinha decidido ler por razões que eu julgava totalmente distintas da atmosfera do momento: Brás, Quincas & Cia., de Antonio Fernando Borges, deu-me a sensação de que um nó na garganta se desfazia.
Era o romance do mundo que se ia "not with a bang but a whimper", como diz o verso mais famoso de Eliot. Nele, estavam descritas as pequenas atitudes do cotidiano brasileiro que marcavam algo no próprio espírito e, melhor ainda, descritas em pleno português literário, meditado e ajustado ao ouvido local, e não o idioma genérico levemente anglicizado que, cada vez mais, passa por "português culto".
Ler o que escreve Antonio Fernando Borges é sentir-se em contato com a tradição e com a vida aqui-e-agora; poder aprender com ele é uma oportunidade formidável.
Pedro Sette-Câmara Poeta e tradutor