Como alguém tem que ser o primeiro a passar vergonha, eis minha versão rodriguesca do texto do Von Mises. Antes queria expor o método usado: lí e relí alguns textos do Nelson, tentei copiar a estrutura das frases - creio que não obtive êxito -, além de usar termos característicos que o Nelson costumava usar. Bom, foi o que saiu:
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Um, sentindo-se irritado, diz a outro: - Vá plantar batatas! Ignora completamente que através deste ato involuntário, produzido pelo pecado da ira, garantirá que o tubérculo caulinar subterrâneo chegue às mesas por custos mais modestos. Afinal – é o que diz a economia, não eu – a quantidade de mercadoria aumenta enquanto o seu preço diminui.
Infelizmente, digo, impossível, usar tamanha astúcia com o caviar. Formidável seria mandar os desafetos, que também são cretinos fundamentais, plantarem caviar ao invés de batatas. Haveria nisso pelo menos duas vantagens: antes porque seria a coletivização de uma iguaria burguesa que chegaria às mesas dos proletariados; depois deixaria de ser monopólio das mesas comunistas, afinal – é a história que diz, não eu –, comunistas pensam nos pobres saboreando caviar no estourar das champanhas. Admirável vida!
Mas atentemos às impossibilidades, e elas também são duas: caviar não se planta; é rigorosamente a exploração burguesa dos pobres esturjões que, repito, cedem suas ovas não-fecundadas frente ao autoritarismo capitalista; em seguida, mandar plantar batatas nasce de uma explosão de ira e comer caviar, segundo dizem, é momento de prazer que traz a felicidade. Portanto, segundo as regras da economia – e não as minhas – raridades trazem consigo preços menos modestos. Assim, as felicidades são menos numerosas do que as tristezas, logo terão também preços menos modestos.
Agora tratemos das possibilidades e eu digo o seguinte: se por um lápso lamentável das impossibilidades houvesse um aumento significativo da quantidade de felicidade, o caviar, como uma feliz raridade, poderia ter um aumento indubitável no seu preço. Isso faria com que fosse necessário faturar muito mais dinheiro para levar à mesa muito menos caviar. O diabo é que o capitalista tem essa mania irascível e contraditória de dar menos poder ao dinheiro, mas vejam só, é a economia, não eu, que chama isso de inflação.
Há quem discorde, e a discordância frente ao óbvio, que é ululante, marca a função primordial dos cretinos fundamentais. E não fariam com propriedade os seus papéis de cretinos fundamentais se não vissem a inflação como um aumento de preço borrifado com a ganância exploradora. É um negócio impressionante certas atitudes que só os bocós consideram geniais. Eu digo o seguinte: um cretino fundamental vai lá, sobre numa tribuna, e fala com uma complexidade juvenil. Aparentemente, digo, evidentemente, é uma grande bobagem. Mas vejam só, em pouco tempo aparece uma quantidade significativa de outros cretinos fundamentais, porque eles se organizam, se arregimentam e coadunam na tarefa de erguerem juntos uma bobagem monumental.
Para começo da conversa, quero dizer, para o final dela, nunca houve uma contestação séria a esse negócio da inflação ser a queda progressiva do poder de compra em função da quantidade de dinheiro produzida como numa lavoura de batatas. Mas os idiotas da objetividade vêem algo de genial na complexidade juvenil de um sujeito que é um cretino fundamental. E como bons brasileiros que são, mesmo sem saberem nada, põem-se, em uníssono, a bradar essas coisas horrendas, sem pingar uma lágrima pelo infortúnio dos pobres esturjões que são, de forma incontestável, privados de produzir seus esturjõezinhos.
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TEXTO NO. 1
O “MODELO DIDÁTICO” VON MISES
Se a oferta de caviar fosse tão abundante quanto a de batatas, o preço do caviar – isto
é, a relação de troca entre caviar e dinheiro, ou entre caviar e outras mercadorias – se
alteraria consideravelmente. Nesse caso, seria possível comprá-lo a um preço muito
menor do que o cobrado hoje. Da mesma forma, se a quantidade de dinheiro aumenta,
o poder de compra da unidade monetária diminui, e a quantidade de bens que pode ser
adquirida com uma unidade desse dinheiro também se reduz.
Quando, no século 16, as reservas de ouro e prata da América foram descobertas e
exploradas, enormes quantidades desses metais preciosos foram transportadas para a
Europa. A consequência desse aumento da quantidade de moeda foi uma tendência
geral à elevação dos preços. Do mesmo modo, quando, em nossos dias, um governo
aumenta a quantidade de papel-moeda, a consequência é a queda progressiva do poder
de compra da unidade monetária e a correspondente elevação dos preços. A isso se
chama de inflação.
Infelizmente, nos Estados Unidos, bem como em outros países, alguns preferem ver a
causa da inflação não no aumento da quantidade de dinheiro, mas na elevação dos
preços.
No entanto, nunca se apresentou qualquer contestação séria à interpretação econômica
da relação entre os preços e a quantidade de dinheiro, ou da relação de troca entre a
moeda e outros bens, mercadorias e serviços. Nas condições tecnológicas atuais, nada
é mais fácil que fabricar pedaços de papel e imprimir sobre eles determinados valores
monetários. Nos Estados Unidos, onde todas as notas têm o mesmo tamanho,
imprimir uma nota de mil dólares não custa mais ao governo que imprimir uma de um
dólar. Trata-se exclusivamente de um processo de impressão, a exigir, nos dois casos,
idênticas quantidades de papel e de tinta.
LUDWIG VON MISES, As seis lições
